sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Pretérito imperfeito

 O coração, que do pretérito assinalava o nome teu, tem agora as chagas eternas que nunca hão cicatrizar.

Se um dia conheci, do amor, Eros, Philia e Ágape, hoje me afogo nas perguntas infinitas sem respostas

Talvez porque todos eles colidiram num chiado de mil megatons. E o apocalipse me tragou.

Talvez o amor se renove, se reinicie, amadureça, ou se dissolva. Talvez em dez anos ou mais anos


Mas persisto em mim, com toda dor, todo amor e o contudos que terei de conviver.


Para todo e sempre,
Eu.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Contra a maré

Senti a brisa vindo do alto mar tocar meu rosto. Naquele instante era bem-vinda. Avanço mais um pouco. A areia, antes fofa, dá lugar à outra firme e úmida. A água fria toca meus pés me convidando a entrar.

Segui bem-vindo confortável até demais. O vento se adequou inconformado e soprou para me atingir, trazendo consigo gotículas que me lembraram o sereno ou fina garoa das longas madrugadas.

O mar se agitou, parecia agora desconfortável com a minha presença. O vento mudara o clima, o tempo e o mar se arritmou.

Estava agora com a água até o peito. A pressão sobre os meus pés era um afago, o frio parecia ser uma única linha onde a flor da água tocava minha pele nua.

Me distraio

Tarde demais, vejo uma onda quebrando sobre mim, seu agito violento, as escumas cândidas, a areia pálida, o sol avermelhado e o sal demasiado.

Me afoguei por completo, esqueci de molhar os punhos, perdi o controle.

A maré me levou ao raso.

Agora estou a salvo, mas dentro de mim ainda há o gosto das desventuras do alto-mar.   


Novafala

Enfrento este não-lugar

e a fuga dos ecos que duplosmaisnãobonspensamentos trazem

assim, se tardar o meu sentir, me desimporto

achando-me num eterno dessentir

aos poucos me impessoando

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Carta à ingratidão eterna

 Diadema, 17/11/2021

Querida ingrata, espero que você vá à merda [...] e que quando sua companhia lhe oferecer o oposto do amor, que você tenha com quem contar, pois das decepções da vida estou farto e nunca dar-lhe-ei outros ombros para chorar, abraços para confortar e motivos para sorrir.

Sigo feliz, inclusive muito mais do que quando ao seu lado, e com novas velhas cores muito mais intensas do que qualquer palidez ou tintura gasta e desbotada que um dia ofereceu.

Nossos segredos sim serão eternamente somente nossos, mas, quanto às pessoas ao meu redor, facilmente serão bem-vindas ao amor maior que o seu, visto que do amor a gente nutre, enquanto o seu secou e morreu.

Com algum lamento, Murillo.