domingo, 12 de março de 2017

Entre outras mil

Violentas rajadas balançavam a copa daquela velha árvore

Como desejo efêmero do destino se lançando sobre as folhas,

Eis que rompe de seus nós uma -auto julgada frívola- folha

Acometida às incertezas do acaso, faz-se encolhida

E levada ao vento nos braços, fez-se entendida

Embora saudosa de seus galhos, entendeu a vida.


Quanto ao vento, decidido de partir, cessou.

Restou, para a folha, o tempo que não a abandonou

Se viu em queda livre e lenta, pois seu companheiro a atrasava

Tomou força e o deixou por medo de ser deixada

Já com a face em terra firme, concebeu os céus distantes

Assim como também aquelas copas

Viu os ventos que a violam e as horas indo embora,

Fez-se inexistir em folha pra renascer a própria flora.




Sua metamorfose a fez livre e feliz.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Vou por aí.

Eu tenho uma coleção de moedas
E há muito isso é tudo que eu realmente tenho.

Pois já era tarde para todos aqueles amores.

Eu tenho amigos, mas eles são em si, não meus, mas comigo.

Tenho tido gratidão, só que mais por consequência do que ocasião.

Não tenho tido a mocinha para ser de fato herói, porque ninguém precisa tanto de um
Nem eu também de ser.

Sou um qualquer andando por quaisquer estradas, ruas e vielas

Isso não é de todo mal, eu enfim estou completo de mim mesmo,

Mas tudo que tenho é, de fato, uma singela coleção de moedas.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Puído

O amor é um traje puído
De tempos em tempos, enroupado
Certas vezes enrustido
Noutras tantas amostrado

Pode até ser esquecido
Mas nunca ser descartado

O amor é um traje puído
Aspirando satisfação
Já nem as traças o tem roído
Me aquece o corpo e a alma não

O amor é um traje puído
Que há muito quero encontrar
Pois despido do muito que sinto
Temo não saber amar

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Chimaera

Sou fantasma


Embrumado, levito entre espaços

Faço de meus pés seus descalços

Sou sombra viva num espasmo imorredouro


Sou fantasma

Agonia de ponta cabeça

Ardente em cinzas, poeiras

Acorrentado entre a alma e o couro


Sou fantasma


Fico a espreita no lar

Sou pela noite a vagar

Costurado meus lábios

Um segredo a guardar



Fui fantasma


Cavalguei teu corcel

Amplos campos, floresces a mil

Rendi teus encantos

Prescrevi seu vazio


Fui fantasma


Em caravas eu parti

Lindos planos visitei

Em alegorias viajei

Mas nenhum lugar me trouxe a paz

como quando esteve aqui


O fantasma


Face sacra de um corpo quente

Mente vazia e coração dormente

Estampa o medo de forma latente

A triste certeza vazia na imensidão

Eu sou o que resta da nossa paixão



Fantasma.





sábado, 26 de novembro de 2016

Mas você ainda faz

Vi teu sorriso numa velha fotografia
Percebi que nunca mais rimos juntos

Vi teu corpo numa velha lembrança adormecida
Percebi que nunca mais nos tocamos

Vi teus olhos com um brilho inocente
Percebi que nunca mais nos fitamos

Lembrei da sua voz sussurrando qualquer coisa
Lembrei que já não nos falamos

Não me esqueci das suas palavras
Por hoje eu ser o seu silêncio.