sexta-feira, 22 de maio de 2026

Depois do sal


O mar, esse velho equívoco geográfico da alma, passou anos acreditando que sua função era resistir.

Resistir às tormentas.

À salinidade involuntária das águas rasas despedidas.

À mania humana de chamar de permanência aquilo que mal sobrevive às estações.

Houve um tempo em que se julgava oceano... vasto o bastante para acolher toda embarcação errante, profundo o bastante para sustentar naufrágios sem jamais devolvê-los à superfície.

E talvez tenha sido..

Ou talvez apenas tivesse aprendido cedo demais que algumas dores possuem marés próprias.

Com o passar dos anos até a eternidade desenvolve rugas... Então compreendeu algo de uma tristeza silenciosa: Nao existe embarcação construída para permanecer.

Barcos são criaturas de partida. Dependem da ilusão dos portos para justificar a coragem do deslocamento.


Chegam.

Ancoram.

Prometem geografias.

Depois partem. Sempre partem.


E ao mar restava o velho ofício de continuar sendo caminho.

Nunca destino.

Um canal..

Correnteza..

Intervalo entre saudades..


Talvez por isso tenha aprendido a contemplar a própria vastidão com a resignação dos antigos naufrágios.

Como quem aceita que amar também significa permitir travessias, mesmo sabendo que quase todas terminam no idioma das ausências.

Mas o curioso das águas e dos milagres discretos é que às vezes elas cansam de repetir a própria história.

Sem aviso, astrologias favoráveis ou qualquer grande metáfora anunciando mudança.

Um dia, o mar percebeu que alguém permanecia.

Não para atravessá-lo.

Não paa domesticá-lo.

Mas para contemplar suas profundezas como quem finalmente entende que certos abismos não pedem resgate........

.....pedem companhia.

Desde então, as noites desaprenderam o silêncio.

As marés bailam.

As manhãs parecem menos interessadas em despedidas.

A angústia, essa velha criatura anfíbia, encontrou onde se afogar.

E o amor.. Um estranho sobrevivente de tantos temporais, resolveu ficar.

Porque, afinal, até o mar, depois de tanto tempo confundindo eternidade com solidão, descobriu algo que nenhuma correnteza havia lhe ensinado:

Há luas que não apenas movem as marés. Há luas que escolhem ficar.

E talvez sejamos isso.

Um improvável acordo entre permanência e movimento.


O mar.

A lua.


A quem dedico este derradeiro texto, pois todo amor agora é expresso em olhares, abraços, apoio e cumplicidade.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Como metais e transições

 Esperara que as pessoas se movimentem sozinhas (ou que tenham um pouco mais de energia para alcançar os lugares que lhe são de direito) as vezes é demais.

É como um metal retorcido diversas vezes e está no limite do seu ponto de estresse. Apenas mais um movimento e ele rompe, quebra definitivamente.

exigir um movimento maior do que podem, exigir que façam apenas mais um pouco, que tomem mais uma condução, que se frustrem com mais uma prova, que não sejam aceitos em determinado lugar pode ser o último movimento para que cheguem em um ponto de não retorno.

Fazer parte de algo maior do que eu me faz acreditar que posso evitar essas movimentações.

Aprendi a fazer as pessoas acreditarem em si. Aprendi a acreditar também.

E é quase absurdo pra mim acreditar que estou feliz.

Porque venho de um lugar de sobrevivência em que eu era ameaça, vítima e salvação ao mesmo tempo.

E me admiro em saber que estou feliz e sei o que estou fazendo.

Não era normal alimentar nada de bom em mim. 

E me cercar de pessoas incríveis me impulsiona a ir ainda mais longe.

Precisei me encontrar pra entender a vida como é.

E com toda insegurança do mundo me valho de um fardo brocado que carrego... Sei viver contradições.

Porque talvez eu mesmo seja uma.

E por isso não quebro, mesmo se testado até o fim.

   

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Ecos dimensionais

 Meu amor


Eu sei que te magoei.


E eu fiz isso por estar à deriva, mas ancorado em alguém que não navega mais comigo


Não aprendi nada. O motivo dela ter partido foi exatamente o mesmo. 


Eu não sou de amores tranquilos


Acho que as vezes o baque das emoções são as únicas maneiras de eu me sentir vivo.


Mas também acho que sou uma mentira, porque eu me sentia vivo quando navegávamos em alto-mar.


Bom, me recuo ao lugar de nada esperando que numa outra dimensão nossos ecos ainda sejam felizes juntos sem nenhum trauma, dor ou desespero que vivemos por aqui.


E eu assistiria esses ecos como um filme de final feliz que eu me alegrasse com a esperança de um dia sermos nós a terminar juntos.


Bobeira, eu sei.


Mas a falta as vezes pesa mais do que uma simples rotina tediosa.


A minha fuga não está na rotina, mas nos lugares seguros que eu posso ser eu mesmo e desabar do acumulo de ser alguém tão dorido.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Ensaio sobre ebriedade

 Instilado o veneno

Corre agora em minhas veias a indiferença

A ingratidão

O narcisismo e falta de consideração

Sua voz.. A indecisão.. O vacilo em responder que não me ama

Mas o ponto final não estabelecido.

A eterna dúvida que levarei para os sonhos

O desejo incontido que me revira na cama e nos banhos.

A falta

Você.


Sua voz me corroeu a sobriedade.