terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Dos dias que não me cabem tanto

 Os dias passam e os dessabores vêm. Não há nada para dizer, apenas a angústia que é ter de suportar a rotina

O clique de um relógio, o interminável feed, as redes sociais, as notificações, propagandas e aquele eterno vazio no peito.

Me entupo de remédios para me suportar. e suporto por todo mundo, mas que mal é ter de ser assim para mim mesmo.

Ainda existem aindas, respostas que nunca virão porque algumas coisas na vida não existem respostas que não o costume de conviver com tudo aquilo que não queremos.

A imensidão parece tão mais calma que o silêncio do meu quarto, exceto pelas goteiras e pingos de chuva na janela.

Ligo o ventilador, o motor está velho e falta lubrificação, seu barulho cobre os outros. 

Assim durmo num caos que eu invento para inibir a ordem que me empurram garganta abaixo.

Mas, como eu ou a chama de uma vela fraca que se apaga, do escuro vejo de quando em quando um vagalume. Eu o pego, o salvo fora do meu quarto e em seguida me arremesso indelicado na cama como quem pedisse pra cair do 18º andar.

É insuportável observar tudo o tempo inteiro

Mas nunca ser o bastante

Ou o suficiente.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Pretérito imperfeito

 O coração, que do pretérito assinalava o nome teu, tem agora as chagas eternas que nunca hão cicatrizar.

Se um dia conheci, do amor, Eros, Philia e Ágape, hoje me afogo nas perguntas infinitas sem respostas

Talvez porque todos eles colidiram num chiado de mil megatons. E o apocalipse me tragou.

Talvez o amor se renove, se reinicie, amadureça, ou se dissolva. Talvez em dez anos ou mais anos


Mas persisto em mim, com toda dor, todo amor e o contudos que terei de conviver.


Para todo e sempre,
Eu.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Contra a maré

Senti a brisa vindo do alto mar tocar meu rosto. Naquele instante era bem-vinda. Avanço mais um pouco. A areia, antes fofa, dá lugar à outra firme e úmida. A água fria toca meus pés me convidando a entrar.

Segui bem-vindo confortável até demais. O vento se adequou inconformado e soprou para me atingir, trazendo consigo gotículas que me lembraram o sereno ou fina garoa das longas madrugadas.

O mar se agitou, parecia agora desconfortável com a minha presença. O vento mudara o clima, o tempo e o mar se arritmou.

Estava agora com a água até o peito. A pressão sobre os meus pés era um afago, o frio parecia ser uma única linha onde a flor da água tocava minha pele nua.

Me distraio

Tarde demais, vejo uma onda quebrando sobre mim, seu agito violento, as escumas cândidas, a areia pálida, o sol avermelhado e o sal demasiado.

Me afoguei por completo, esqueci de molhar os punhos, perdi o controle.

A maré me levou ao raso.

Agora estou a salvo, mas dentro de mim ainda há o gosto das desventuras do alto-mar.   


Novafala

Enfrento este não-lugar

e a fuga dos ecos que duplosmaisnãobonspensamentos trazem

assim, se tardar o meu sentir, me desimporto

achando-me num eterno dessentir

aos poucos me impessoando