terça-feira, 30 de maio de 2023

Porquanto me quero bem

Ser doente em uma sociedade doente

É nunca saber se você está por detrás ou frente ao véu.


É não saber dançar a música que toca

É ser atropelado todos os dias por ter a certeza que há no âmago de si um quê de fracasso

E é ter que lutar dia sim, dia não para que essa coisa não cresça.

Mas ninguém vê sua luta

Ninguém vê seu esforço

Ninguém vê nada... Porque ao mesmo tempo que a luta está travada, você precisa levantar, tomar café, tocar seus projetos, seu trabalho, talhar seus sorrisos e entoar bons dias.

Por vezes penso que o doente não sou eu. Talvez eu seja o único são em um mundo doente. Mas isso me tornaria, de novo, mais doente ainda.

A razão que levo no sorriso as vezes é demais pra mim

Seria mais fácil não haver razão alguma. Mas isso seria exigir demais de mim.



segunda-feira, 15 de maio de 2023

Fugir toda vez corro riscos

 Em meio a tantos por dizeres que me somam


O beijo gentil e fraternal nas mãos de longos e finos dedos resumiriam parte do amor que inspira

Ao passo em que segurar firme sua mão com os dedos entrelaçados seria pedir para que o tempo nunca nos separasse.

Estou reaprendendo a sorrir sem máscaras

Estou vivendo como sempre fora pretendido. Fora de perigo, sem riscos.

Fiz minhas pazes com a vida, agora vagar por aí é me dar conta de que eu teria cometido o maior dos erros.

E agora sei sentir. Aprendi que "amar também é deixar ir".

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Miocárdio e o Escárnio

Aqui dentro


Profundo


Sob carne, ossos, sangue, músculo e gordura estou


Aqui eu sou


Sou o ser que fala em minha mente, mas também sou o que escuta


Sou coração que pulsa e irriga todo o corpo


E cérebro que sente e a todo resto domina 


Sou afeto


Sou a dor e o amor


Muita vezes amálgamos


O que resta eu sou.


Um acúmulo de pecados e erros camuflados em sorrisos amarelos


E se me dizem "seus olhos sorrirem"


É porque não sabem mais chorar.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Das coisas que nunca direi

 Não, e não, e não e não.

É tudo que eu posso dizer. E ao dizer isso, quero que tome minha compaixão.

Direi não.

Para não dizer do desespero que foi vê-la partir.

Direi não.

Para não dizer da dor que mutilou meu espírito

Direi não.

Para não dizer dos túmulos que me deitei

Direi não.

Para não dizer dos alteres dos quais fugi

Direi não.

Dessa vez como um apelo.

Direi não.

Para esquecer do arrependimento do que fiz

Direi não p'ra que o silêncio lhe esmague como a mim

Eu digo não na contramão do coração

que mesmo morto

Se pulsasse, se pudesse

Diria sim.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Farol lunar

Terra à vista!


E disparou-se a âncora naquela rocha cinza. O desembarque foi leve e toda carga mantida à bordo.

Tirou os sapatos e tocou os pés naquela areia fina. 

A paisagem era borralha. 

O céu iluminava-se de estrelas e infinitas marés de nuvens galácticas. 

O farol estava apagado. 

E ninguém havia para navegar no cosmos ou notar seu mundo gris.

Mas ainda era cedo para me lembrar de ser sozinho. 

Haveria ele de recordar e ter alguma força para se concentrar.

Então subiu as escadarias espirais de seu farol, realimentou sua chama que estava quase se apagando.

O farol agora poderia anunciar novas vindas.

Assim, deixaria de estar a sós ali na lua. 

Encontraria nova vida além daquela.

O marinheiro lunar e sua chama. 

E a embarcação vindoura do além-mar.