segunda-feira, 27 de março de 2023

Farol lunar

Terra à vista!


E disparou-se a âncora naquela rocha cinza. O desembarque foi leve e toda carga mantida à bordo.

Tirou os sapatos e tocou os pés naquela areia fina. 

A paisagem era borralha. 

O céu iluminava-se de estrelas e infinitas marés de nuvens galácticas. 

O farol estava apagado. 

E ninguém havia para navegar no cosmos ou notar seu mundo gris.

Mas ainda era cedo para me lembrar de ser sozinho. 

Haveria ele de recordar e ter alguma força para se concentrar.

Então subiu as escadarias espirais de seu farol, realimentou sua chama que estava quase se apagando.

O farol agora poderia anunciar novas vindas.

Assim, deixaria de estar a sós ali na lua. 

Encontraria nova vida além daquela.

O marinheiro lunar e sua chama. 

E a embarcação vindoura do além-mar.


domingo, 19 de março de 2023

Nos olhos da manhã

Ainda é manhã quando todas as coisas repousam sob a brisa fria que amansa o dia

As flores não acordaram e os sons vêm tímidos romper o silêncio de antes.

A face do céu azul ancora o brilho esplendoroso que acaricia sua tez.

Já agora os pássaros cantam de maneira suave, grilos tilintam como pequenos sinos em conjunto

Toda harmonia desperta as folhas verdes para receber do sol, a luz.

É tão calmo que fechar os olhos me arrebata à sua face. Tão clara, de olhos tão belos.

Nenhuma beleza jamais foi parecida com a dela.

Tomo meu café forte, meus lábios premidos e o sabor enclausurado em minha boca.

Que sorte foi ter tocado teus lábios.

Que amor foi ter vivido aquelas manhãs dos olhos teus.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto

O ato de escrever é tornar indelével o que se manifesta

Revisitar a escrita é retornar no tempo. 

É estar naquele lugar revendo o cenário, sentindo os cheiros, sabores e texturas.

É experimentar o desejo, o beijo, a dor, a despedida, o desespero.

É ter com quem já virou história.

E reviver tudo que não lhe cabe na memória.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Campanário

 Ali no alto do campanário daquela velha igreja eu pude observar toda a cidade.

Imaginei que aqueles enormes dormentes da estrutura eram centenários e, por ali, eu havia visitado inúmeras vezes ao longo dos séculos com o mesmo prazer de simplesmente estar ali.

Naquele lugar de onde eu observava as pessoas eu não era visto. E enquanto os sinos soavam eu podia chorar sem ser ouvido.

Mas o vento que tocava meu rosto era intrigante. Secou as lágrimas e renovou meu ar. Quando os sinos emudeceram vi as ruas, pessoas, sons e sorrisos. 

Então tive mais um motivo para estar. Sempre tenho um motivo para estar.

E permaneço. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Ser só

Ouvi aquela voz... Aquela voz se cala... Ela que me embarga... afoga a alma... E quando estou a sós... O peito aperta... A quem acompanho... A quem deveria acompanhar... 


Queria luz da manhã, Querido primeiro raio de sol, pinheiro que deixei de cultivar. O que estou fazendo de mim?


Eu continuo. 

Só, continuo.