O mar, esse velho equívoco geográfico da alma, passou anos acreditando que sua função era resistir.
Resistir às tormentas.
À salinidade involuntária das águas rasas despedidas.
À mania humana de chamar de permanência aquilo que mal sobrevive às estações.
Houve um tempo em que se julgava oceano... vasto o bastante para acolher toda embarcação errante, profundo o bastante para sustentar naufrágios sem jamais devolvê-los à superfície.
E talvez tenha sido..
Ou talvez apenas tivesse aprendido cedo demais que algumas dores possuem marés próprias.
Com o passar dos anos até a eternidade desenvolve rugas... Então compreendeu algo de uma tristeza silenciosa: Nao existe embarcação construída para permanecer.
Barcos são criaturas de partida. Dependem da ilusão dos portos para justificar a coragem do deslocamento.
Chegam.
Ancoram.
Prometem geografias.
Depois partem. Sempre partem.
E ao mar restava o velho ofício de continuar sendo caminho.
Nunca destino.
Um canal..
Correnteza..
Intervalo entre saudades..
Talvez por isso tenha aprendido a contemplar a própria vastidão com a resignação dos antigos naufrágios.
Como quem aceita que amar também significa permitir travessias, mesmo sabendo que quase todas terminam no idioma das ausências.
Mas o curioso das águas e dos milagres discretos é que às vezes elas cansam de repetir a própria história.
Sem aviso, astrologias favoráveis ou qualquer grande metáfora anunciando mudança.
Um dia, o mar percebeu que alguém permanecia.
Não para atravessá-lo.
Não paa domesticá-lo.
Mas para contemplar suas profundezas como quem finalmente entende que certos abismos não pedem resgate........
.....pedem companhia.
Desde então, as noites desaprenderam o silêncio.
As marés bailam.
As manhãs parecem menos interessadas em despedidas.
A angústia, essa velha criatura anfíbia, encontrou onde se afogar.
E o amor.. Um estranho sobrevivente de tantos temporais, resolveu ficar.
Porque, afinal, até o mar, depois de tanto tempo confundindo eternidade com solidão, descobriu algo que nenhuma correnteza havia lhe ensinado:
Há luas que não apenas movem as marés. Há luas que escolhem ficar.
E talvez sejamos isso.
Um improvável acordo entre permanência e movimento.
O mar.
A lua.
A quem dedico este derradeiro texto, pois todo amor agora é expresso em olhares, abraços, apoio e cumplicidade.
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